14/01/2007 a 20/01/2007


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 Além do Princípio do Prazer
 Mude
 Vergonha dos Pés







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Aquarela das Cores
 

TUDO COLORIDO - PARTE I

Aquele dia estava sendo um fracasso. Duas reuniões "importantes" resultaram em nada. Na primeira não consegui renovar o contrato. Na segunda, minha proposta não estava de acordo com o que esperavam. E, ainda podia ouvir o voto de "incentivo" do meu chefe pela manha: - Contamos contigo meu jovem!

Mal humorado, cansado, faminto, dirigia-me apressado a estação de trem. Tinha pouco mais de uma hora para retornar ao escritório, enfrentar outra reunião e apresentar os relatórios do fracasso.

Carregando uma pesada mala, repleta de "papeis importantes", teria, durante a viagem de volta, tempo suficiente para formular os resumos do dia.

Procurei um assento distante da porta de entrada do vagão. Estaria ocupado com coisas “muito importantes” e não queria ser incomodado. Acomodei-me e tirei da mala os papeis que passaria a analisar.

Foi quando aquela menininha barulhenta entrou, puxando a mãe pelo braço e gritando: -"ali mamãe, eu quero sentar ali"!

A mãe, que estava “muito ocupada” ao celular, não prestava atenção e deixou-se levar pela menina ate acomodarem-se... exatamente ao meu lado!

Perfeito!

A menininha então começou um reboliço para tirar o pesado casaco cor-de-rosa, a touca em formato de orelhas de coelho e as luvas, e, entusiasmada, dizia - Ahhh eu gosto tanto de viajar de trem! Esse trem é tão bonito!

Perfeito!

Pensei em procurar outro assento, talvez outro vagão, mas, naquele horário, seria difícil encontrar assentos vagos e decidi apenas me concentrar no trabalho que tinha a realizar.

Por alguns minutos a menina ficou entretida, olhando as pessoas e coisas a sua volta. Levantou-se no banco, foi repreendida pela mãe (que continuava ocupada ao celular) e resolveu prestar atenção em mim. Intrigada pela minha cara seria e compenetrada e pelos meus “papeis importantes“, cruzou os braços e ficou a me observar.

Olhei-a de lado, com cara de poucos amigos, e, acompanhando um belo sorriso, ela piscou para mim.

Esbocei um sorriso e novamente voltei os olhos ao papeis importantes.



 Escrito por Tchello às 16h08 [] [envie este texto]


TUDO COLORIDO - PARTE II

Não satisfeita, a menininha resolveu apresentar-se:

-Ola! Meu nome é Chloe, e o seu?

Fingindo não ser comigo, não respondi... eu não queria ser incomodado, tinha coisas “muito importantes” para fazer!

E, novamente... -Oi! Meu nome é Chloe, e o seu?

Respirando fundo, pensei: - Quando a mãe dessa menina vai "se tocar" que sua filha esta me incomodando?

-Meu nome é Marcello!

-Marcello? Nossa, que nome esquisito!

-Esbocei outro sorriso e voltei para meus papeis importantes.

-O que você esta fazendo? Perguntou novamente a menininha

-Estou um pouco ocupado agora, estou trabalhando.

-Ah, eu também tenho um trabalho. Eu cuido dos meus cachorros! Dou comida, coloco água e os levo para passear no quintal. Sabe, na hora em que eles precisam fazer coco e xixi. (cochichou-me em confidencia).

Céus! Era tudo que precisava! Uma menininha tagarela falando sobre seus cachorros...

Meu celular toca. Era uma ligação “muito importante” e atendi. Um dos clientes que visitaria no dia seguinte confirmando os horários.

Ao desligar, lá estava a menina, ainda mais curiosa a me olhar.

-Porque você fala esquisito?

Observadora como era, obviamente notara meu sotaque.

-É porque não sou daqui. Nasci em outro país e nesse país fala-se outra língua.

- Uau, que legal! Eu também não sou daqui. Eu sou uma princesa!

Voltei meus olhos aos papeis.

-Como é a língua onde você nasceu?

-É diferente. (respondi, respirando fundo e olhando para a mãe da menina, que continuava ocupada em sua ligação “muito importante“).

-Eu gosto de coisas diferentes. Eu adoro fazer tudo diferente!

-Que bom pra você!

-É, eu gosto de assistir televisão de cabeça para baixo, gosto de tomar "breakfast" na hora do jantar, gosto de usar meu cabelo assim (e levantou os cabelos crespos arrumados em dezenas de trancinhas) ... mas minha mãe não deixa porque diz que fica feio. Você acha que fica feio?

-Não, não fica feio. Fica bonito.



 Escrito por Tchello às 16h07 [] [envie este texto]


TUDO COLORIDO - PARTE III

-Quando eu crescer quero ser astronauta!

-Mas você já não é uma princesa?

-Sim, mas eu vou ser uma princesa astronauta!

-Quantos anos você tem, princesa?

-Eu tenho 5, mas vou fazer 6 esse ano! E você?

-Eu tenho 22, mas vou fazer 23 esse ano!

-Quando eu tiver 22 eu já vou ser uma astronauta! O que você é?

(quando eu tinha 5 também queria ser astronauta)

-Eu não sei ainda, não consegui escolher!

-Puxa! Ainda não…

... dois minutos de sossego, tento voltar aos meus papéis...

-Como você vê as coisas?

-Como assim, Chloe?

-Quando você olha para as coisas, como você as enxerga?

(não compreendendo a complexidade da pergunta da menina, respondi com toda a clareza dos adultos)

-Não sei... acho que as vejo como todo mundo.

(pensativa, ela respondeu)

-Ahh... eu não! Eu vejo tudo colorido!

Finalmente a mãe da menininha desligou o celular e, percebendo que eu deveria estar ocupado, pediu-me desculpas e disse à filha que não me importunasse mais... tarde demais, eu já estava apaixonado!

Com aquele olhar curioso, ela me fez um pedido:

-Você me ensina a falar esquisito?

E, assim ficamos o restante da viagem, ela vibrando a cada nova palavra ou frase que aprendia e eu ensinando-a a falar esquisito.

Poucos minutos antes do fim da viagem, toca novamente o celular. Outra ligação “muito importante“.

Não atendi. Eu estava muito ocupado, não queria ser interrompido. Aquela menininha estava me ensinando a ver tudo colorido!



 Escrito por Tchello às 16h06 [] [envie este texto]


LIBERDADE

Cansei...

Cansei da sua instabilidade, da sua possessividade, da sua ira!

Cansei das suas crises e meninices. Do seu jeito de me fazer sentir culpado, frustrado, incapaz.

Cansei de suas inseguranças, suas lagrimas, sua cara feia.

Cansei de tentar compreende-la, de tentar ajudá-la, de tentar fazê-la entender.

Cansei de ser o ator principal, o coadjuvante, o figurante.

Cansei de suas certezas, de suas incertezas, de suas conjecturas.

Cansei de procurá-la e não encontrá-la.

Cansei dos seus sofrimentos reais e imaginários.

Cansei da sua necessidade de mim.

Cansei da minha necessidade de você.

Cansei de empunhar a espada, montar no cavalo branco e duelar seus dragões para resgatá-la do alto da torre do castelo.

Cansei das reconciliações, dos beijos desesperados, dos gozos angustiados.

Cansei de pensar na perda, na falta, na dor.

Cansei...

Entreguei os pontos.

Libertei-me!

Agora, estou feliz!

Agora, sei o que é liberdade!

Agora, respiro aliviado!

Agora sim, estou livre para amá-la!



 Escrito por Tchello às 15h56 [] [envie este texto]


ACOLHIDA

Não existia.

Chegou... do nada.

Veio. Não bateu, não pediu permissão, não disse a que vinha. Somente veio.

Entrou. Sem saber onde estava pisando, o que encontraria, tampouco se gostaria.

Ficou. E foi ficando...

Agora já não mais vem, não sai, mas também não fica.

Agora existe.

Simples assim: agora é.



 Escrito por Tchello às 15h36 [] [envie este texto]